Wednesday, March 4, 2015

quanto tempo leva?

Quando meu mundo caiu, eu comecei a cutucar as cutículas dos polegares das mãos. Eu apenas cutucava, repetidamente. os dedos ficavam vermelhos e irritados, mas eu não conseguia parar. Eu já perguntava para as pessoas a mesma pergunta que eu ainda faço hoje, três meses e meio depois. Quanto tempo leva? 

Acho que com isso eu alterei o crescimento das minhas unhas. Eventualmente, quando cresceram um pouco, eu percebi que havia uma ondulação nelas. A unha do polegar não crescia lisinha. Perto da cutícula havia uma depressão, o inicinho da unha era fundo, e isso fazia um degrau até a parte seguinte, que era a unha normal de quando estava tudo bem e eu não me machucava sem perceber. quanto tempo leva? Eu continuava perguntando, com as mãos levemente estragadas e minha mãe insistindo que eu passasse um esmalte. 

Começou em novembro. Eu olho pra trás e tudo parece meio nublado. Não sei a ordem dos acontecimentos, apaguei da memória conversas inteiras com amigos queridos. Não lembro de coisas que eu disse. Lembro das perguntas, não lembro das respostas. Quanto tempo leva? se me dissessem naquele 22 de novembro que levava mais de 3 meses, como eu sei agora, acho que eu teria ficado menos desesperada. Eu preciso de dados, de informações, de um infográfico que me guie pelas fases do luto pós separação. Eu só queria saber ao certo quanto tempo leva. Três meses eu já sei que não é, porque eu vivi esses três meses e ainda estou de coração partido.

Existe melhora. eu já não passo todo o tempo chorando, mas eu ainda penso em tudo o que foi, em tudo o que deixou de ser. E eu ainda penso nele, sim. Não na pessoa que ele é hoje. Eu pouco me pergunto o que ele anda fazendo. Eu pouco me pergunto se ele sente saudades. Eu sinto saudades, mas não dessa pessoa de agora, que anda por aí como se nada tivesse acontecido. Eu sinto falta de quem ele foi, quando nada disso parecia que ia acontecer. Nunca. Sinto falta dele fazendo pão na cozinha, ou me pedindo pra dormir mais cedo. Quanto tempo leva? Eu fico bem 60% do tempo, será que já dá pra contar? São os outros 40% que me atropelam de repente numa quarta feira ensolarada. Que me fazem desmarcar um date com um menino bonito e aparentemente muito legal, mas que eu não consigo nem cogitar conhecer melhor. São os 40% que me fazem esconder no banheiro no meio do expediente e chorar. Será que mais três meses e eu vou estar ok?

Eu acompanho o crescimento das unhas. O desnível provocado pelos machucados que eu fiz está agora na metade. Quase metade. A cada vez que eu escondo essa falha com esmalte, eu meço mais um pouquinho. Quanto tempo falta? Acho que em mais três, quatro meses, o desnível terá chegado na outra extremidade e eu poderei finalmente cortar fora a lembrança . Eu espero secretamente que quando esse momento chegar, eu já esteja inteira, assim como as unhas.

Eu conto o tempo ali.

Sunday, January 18, 2015

anônima

O desafio é chegar aqui e começar a escrever. Sabendo que ninguém me conhece. Que eu posso ser livre, e me rasgar por inteiro, e chorar cada pontada que eu sinto no coração desde que tudo começou. Sabendo que ele não vai ler. Porque eu sempre usei blog como forma de comunicação, eu sempre escrevi pra ser lida, e em momentos de rompimento eu sabia que quem precisava me ouvir estaria lendo. Então eu escrevia. E ele me disse pra escrever, e disse que entrava no blog todos os dias. E eu só chorava dizendo que não conseguia mais. Que ele tinha me calado e que eu não queria machuca-lo como estava sendo machucada. Eu aguento, ele disse.

Eu até sei que ele aguenta. Quem não aguenta sou eu.

Sou eu que estou fragilizada. Que choro fechada em casa, que me assusto com pesadelos. Eu tenho medo de tudo. Eu preciso me proteger, mas eu nem sei como começar. Não quero que ele saiba de mim, nunca mais. Não escrevo pra ele. Tenho medo que ele esteja acompanhando o que eu faço ou o que eu digo, pra poder concluir quando eu estiver melhor e se sentir menos culpado. Eu nem acho que ele sinta culpa. Tem gente que passa por cima de tudo, deixa tudo pra trás. Eu fiquei pra trás. Ele me deixou pra trás.

Aqui ninguém me conhece. Sou só eu. Sem histórico, sem leitores, sem amigos. Eu queria deitar em posição fetal, em algum lugar quentinho e hibernar, dormir até que tudo passasse. Até que a dor passasse. São 58 dias desde aquele 22 de novembro. Eu quase não sei como vim até aqui. Eu não acho que eu tenha sobrevivido. Eu não sei como passar por isso, o tempo não me tornou mais sábia ou fez com que eu me acalmasse. Eu continuo sobressaltada, eu continuo com choro engasgado, eu continuo odiando a vida que eu precisei seguir. É questão de tempo, me dizem. Mas quanto tempo?